segunda-feira, julho 23, 2012

a rua





Desces a rua calcando a calçada incerta. Estás com a última música que ouviste na rádio a rodopiar a cabeça. Tens o sabor do último rum que bebeste naquele bar da esquina com grande vista para a insanidade do mundo a tornar-te a boca aspra. E tens o último homem que amaste a esfacelar o teu coração. Todos os pormenores te deixam enfermo e tudo se desdobra em lembranças, mas a rua continua, e já vai longe a esquina em que se virou. Tropeça-se mais uma vez na calçada, numa memória fragmentada e esguia. Continuando a descer a rua enraizada, damos connosco com os olhos presos aos números das portas, fazendo a contagem decrescente, desejando que o caminho nunca seja eterno, que acabe. O cansaço invade  as nossas entranhas, os cotovelos já iam ocasionalmente roçando contra as paredes velhas e gastas das casas, os pés inchados e suados, até que ficamos estáticos. Olhamos em frente e o cansaço rouba-nos um sorriso cabisbaixo. Com os olhos presos e coração enloquente, damos mais um passo em frente e assim interiorizamos... é o fim, és o fim. E aí sim, aprendemos que o amor não nasce atrás das montanhas e não se deita sobre o mar. O amor é um poema, pois cicatrizes são poéticas e o amor rima com dor, os versos vacilam enquanto o choro cantam, o peito aperta no soluçar e a alma afoga-se nas lágrimas do poeta! aprendam: fintar a rua incerta, evitar o caminho, o cansaço só nos torna escravos desse mesmo caminho e nunca nos irá permitir caminhar para a felicidade...

obs: "Pelo tejo vai-se para o mundo. Para além do Tejo há a américa e a fortuna daqueles que a encontraram. Ninguém nunca pensou no que há para além do rio da minha aldeia."

                                                da tua bailarina,

13 comentários:

  1. obrigada sigo tmb, que texto magnífico, lindo mesmo! *o*

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  2. "o peito aperta no soluçar e a alma afoga-se nas lágrimas do poeta" , incrivel!

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  3. "é o fim, és o fim. E aí sim, aprendemos que o amor não nasce atrás das montanhas e não se deita sobre o mar. O amor é um poema, pois cicatrizes são poéticas e o amor rima com dor, os versos vacilam enquanto o choro cantam, o peito aperta no soluçar e a alma afoga-se nas lágrimas do poeta!"

    Gostei imenso do que li, mas esta parte que transcrevi, está espectacular!
    Vou seguir de certeza!!

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  4. Beeeeeeem, isso é realmente MUITO tempo :$
    Mas que grande desgosto. Mas ele deve ter te dado muitas esperanças para ainda continuares assim por esse tempo todo :$

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  5. podes crer que ficarei muito atenta!

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  6. Uiii, já estou a ver que é mesmo :$
    Se precisares de alguma coisa, já sabes!

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